O vento
Flavio Gomes
20/07/2004 - 19:12  
Um pedaço do Dia D: só o vento tem o que dizer
O que mais impressiona é o vento.
Talvez porque eu estivesse sob um capacete, tendo como única companhia o vento e o ruído do motor de uma lambreta. Naquela faixa do litoral norte da França, sessenta anos atrás, o pau comeu. Comeu brabo, tombou gente, metralhadoras cuspiram e granadas explodiram e miolos voaram e sangue jorrou na areia.

Sessenta anos atrás, apesar do barulho, creio que o que mais impressionava já era o vento e a solidão. Eram milhares, mas todos sós. Contra outros milhares de solitários. Numa guerra, não se fala. É apenas o combate, a morte, a sobrevivência e tentar voltar para casa. Um silêncio rumoroso, que na Normandia tem como trilha sonora só o vento.

Éramos quatro lambretas riscando a estrada com o mar à direita, na ida, à esquerda, na volta. Poderíamos ter feito a mesma coisa de carro, seria mais confortável e conversaríamos. Por alguma razão fomos de lambreta, cada um dentro do seu capacete e do seu silêncio, escutando o vento.

Até as lambretas, e depois delas, fomos quatro garotos que cruzaram a França e depois o Canal da Mancha dentro de um trem. Brincando como garotos, falando bobagens como garotos, cantando como garotos num ônibus que nos levasse a um acampamento de verão.

Mas naquelas lambretas, naquelas não sei quantas horas ouvindo o vento e o crepitar dos motores dois tempos, fomos apenas testemunhas tardias de algo que não vimos e custamos a acreditar que tenha acontecido em terras tão opressivamente silenciosas, naquelas horas não fomos garotos cantando e brincando, naqueles cem quilômetros eu só tive o vento como companheiro me contando algo que não sei bem o que é.

Os quatro garotos mal falaram sobre o que sentiram quando desligaram suas lambretas e foram procurar um lugar para jantar. Voltaram as bobagens, os casos, as risadas altas. Voltaram a ser garotos, como garotos eram aqueles cento e cinquenta mil que numa manhã de junho, sessenta anos atrás, desembarcaram naquelas praias em que pisamos sem coturnos ou uniformes, apenas com nossos tênis inocentes e nossas calças de brim.

Ninguém reclamou do vento, porque era ele, o vento, o único que tinha algo a dizer.

A Batalha da Normandia, que sucedeu o Dia D, ou Jour J, como dizem os franceses, se estendeu até o final de agosto de 1944. Americanos, ingleses e canadenses desembarcaram nas praias que hoje se chamam Utah, Omaha, Gold, Juno e Sword para retomar a França e abrir o caminho rumo ao leste, já que na ocasião a Alemanha apanhava feito cachorro vira-lata na frente russa.

Na noite de 5 para 6 de junho três divisões aerotransportadas lançaram milhares de pára-quedistas para tomar uma ponte sobre o rio Orne, que era passagem fundamental para as tropas que viriam a seguir, nas primeiras horas da manhã. Foi onde paramos primeiro nossas lambretas, para tirar fotos e trocar olhares.

Essa ponte tem uma história, ao que parece de fato importante, mas não é o caso de ficar resumindo o passado para preencher espaço e insinuar um conhecimento que não tenho em detalhes. O Dia D é muito bem documentado, há centenas de livros sobre o assunto e alguns filmes esplêndidos, como O Resgate do Soldado Ryan. Se bem me lembro, o assisti há seis anos, a sequência inicial do desembarque tem quase meia hora e nenhum diálogo. Há, sim, muito barulho. E isso ficou na minha memória: o silêncio entre uma explosão e outra, e o vento soprando, sem que ninguém precisasse dizer nada além dele, o vento.

As praias, pelo menos o pouco delas que vimos, nós os das lambretas, são lineares e por alguma razão cinzentas, apesar do céu azul e do sol insistente e ardido nos olhos do começo de julho, frio, embora seja verão. Dá uma sensação esquisita visitar um lugar onde a história do mundo foi decidida. Nós os das lambretas não éramos nascidos em 1944, mas devemos nossas histórias pessoais ao que aconteceu naquelas areias há sessenta anos. Ali a Segunda Guerra começou a ser vencida pelos Aliados e é impossível não recorrer a clichês para descrever a importância dessa vitória. Por isso, preferível é não descrever porra nenhuma.

Na minha lambreta, já com o mar à esquerda, voltando a Deauville e ouvindo o vento, fiquei a pensar se os outros três garotos nas outras lambretas escutavam o mesmo que eu. Não formulei nenhuma imagem sangrenta nem heróica, é bem difícil visualizar tanques, morteiros, canhões, jipes e metralhadoras numa região tão bela e melancólica.

É meio pesado, me disse um, e todos concordaram, e acho que foi tudo que conseguimos entender do que nos disse o vento sob o capacete, para depois pedirmos um vinho e mariscos com batatas fritas e seguir com nossas palhaçadas de garotos cruzando a França para ir à Inglaterra, com uma parada na Normandia para escutar o vento.

(Estas quase duas semanas que passamos na Europa entre as corridas de Magny-Cours e Silverstone foram memoráveis do início ao fim. Talvez eu devesse narrá-las dia a dia, como conviria a um diário, citando nomes conhecidos e desconhecidos dessa turma inigualável que cobre F-1 para que um eventual leitor se aproximasse um pouco desse nosso universo. Seria muito mais interessante do que divagar sobre o vento na Normandia, não há nada mais falso do que imaginar que há alguma mensagem cheia de significados no que sai da minha cabeça, esta sim de vento. Seria bem mais interessante traçar um roteiro começando numa cidade e terminando em outra, Nevers, Bourges, Vierzon, Orléans, Chartres, Dreux, Evreux, Lisieux, Caen, até mencionando nossos pequenos chistes como Allones, a cidade onde todos vivem sozinhos, e não tinha ninguém na rua, mesmo, ou Deauville, assim batizada porque é lá que as mulheres dão. Seria certamente mais interessante traçar uma linha cronológica que incluísse o churrasco à beira do lago na casa de pedra, o vinho passando de mão em mão, a maionese que sobrou, a camaradagem irrestrita e incondicional, os duelos verbais, a torcida por Portugal, os quilômetros e quilômetros por estradas nunca antes percorridas, as paradas para fotos com tripé e tudo, a van pichada com espuma de limpar vidro, a santa descoberta que a todos impressionou, as blasfêmias hediondas minutos depois seguidas de uma devoção ímpar, os mapas rabiscados, a máquina de pescar bichos de pelúcia, o hotel sem porteiro ou telefone, o cybercafé, o orkut, o bate-estaca romeno que virou hino, as casamatas que imaginamos sem ver, as gaivotas em Calais, a feiúra de Calais, o túnel sob o canal, a volta do amigo que não vinha havia tanto tempo, o pato chinês, a besteira, enorme besteira que fiz, tudo isso que ficará gravado na minha memória de forma indelével, mas a cada dia que passa concluo que sou menos capaz de contar coisas com um mínimo de precisão, daí que peço clemência ao que lê e nada entende, porque eu mesmo, ultimamente, não entendo mais nada e apenas escrevo para tentar me entender, o que só piora as coisas.)
Flavio Gomes
flaviog@warmup.com.br


Escrito por Cisne às 21h48
[   ] [ envie esta mensagem ]

___________________________________________________



Leão
Sua previsão para hoje dia 29/07/2004
Aproveite a lunação em Capricórnio e analise uma maneira de aplicar suas qualidades e talentos em projetos mais práticos. Sinta-se útil. Crie novos projetos para o bem estar geral. Dica do dia: No final do dia, deixe um momento para fazer algo que lhe traga prazer pessoal. Como, por exemplo, passear com alguém que te faça sorrir ou mesmo brincar com o seu animal de estimação.


Escrito por Cisne às 15h16
[   ] [ envie esta mensagem ]

___________________________________________________



Hj é o meu aniversário!
26 anos!

Obrigada amigos por lembrarem do meu dia!

hj tb é o:


Aniversário da Princesa Isabel
Foi responsável pela assinatura da Lei Áurea, em 1888, que extinguiu a escravidão no Brasil. Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança e Bourbon nasce no Palácio de São Cristóvão, na cidade do Rio de Janeiro e faleceu em 14/11/1921.

Dia da Identificação
Identificar-se é reconhecer-se, seja como indivíduo ou cidadão, voltando-se para dentro de si ou fazendo do outro seu espelho. Identificar-se envolve valorizar e respeitar, seja a si mesmo, ou aos outros. A identificação pode ser encarada como uma questão pessoal, de um grupo específico ou cultural, devendo ser sempre fator de união e fortalecimento, mas nunca de segregação.

Dia do Nhoque da Fortuna ou da Sorte
Conta a lenda que São Pantaleão, num certo dia 29 de dezembro, vestido de andarilho, perambulava por um vilarejo da Itália. Faminto, bateu a porta de uma casa e pediu comida. A família era grande e tinha pouca comida mas apesar disso eles não se importaram em dividir o seu nhoque com o andarilho, cabendo a cada um sete massinhas. São Pataleão comeu, agradeceu a acolhida e se foi. Quando foram recolher os pratos, descobriram que embaixo de cada um havia bastante dinheiro. Por isso, tradicionalmente todo dia 29 é dia do nhoque da fortuna ou da sorte, acompanhado do famoso ritual de colocar dinheiro embaixo do prato e comer primeiro os sete pedacinhos em pé, fazer um pedido para cada um deles e depois comer a vontade. Bom apetite e boa fortuna! 

Aniversário de morte do pintor holandês Vincent Van Gogh em 1890.
Em 1890, faleceu o pintor holandês Van Gogh. Mestre da arte moderna, com seu estilo pessoal e espontâneo. Um dos mais conhecidos do grande público na atualidade, sua obra exerceu poderosa influência sobre a estética expressionista, que marca grande parte da arte moderna e toda a pintura posterior. 

Aniversário de morte do humorista Mussum, integrante do grupo “Os Trapalhões” em 1994.
Em 1994, faleceu o humorista Mussum, um dos integrantes do grupo “Os Trapalhões”. Antônio Carlos Bernardes Gomes nasceu em 1941, no Rio de Janeiro. Criado no morro, mangueirense e flamenguista, tinha diploma de ajustador mecânico e seguiu carreira militar. Fez parte do grupo “Os originais do samba” antes de entrar para “Os Trapalhões” como o simpático e malandro sambista.


Escrito por Cisne às 15h04
[   ] [ envie esta mensagem ]

___________________________________________________

CopyRight © Cisne
  



Meu humor


Histórico:
10/09/2006 a 16/09/2006
19/06/2005 a 25/06/2005
05/12/2004 a 11/12/2004
14/11/2004 a 20/11/2004
10/10/2004 a 16/10/2004
03/10/2004 a 09/10/2004
12/09/2004 a 18/09/2004
05/09/2004 a 11/09/2004
15/08/2004 a 21/08/2004
25/07/2004 a 31/07/2004
11/07/2004 a 17/07/2004
06/06/2004 a 12/06/2004
16/05/2004 a 22/05/2004
02/05/2004 a 08/05/2004



Outros sites

Amigo dos animais
Adote um Gatinho
Clube dos vira-latas
PoVoGaTo
Rabisco na tela
Adote um Bichinho
Histórias Minhas
Amigas do Peito
ZEPA
IAF Design
Nossos Bichos


Votação

Dê uma nota para meu blog

Indique esse Blog


Créditos

Cisne - Blogs

Visitantes
online

Contador



Layout por

..:: Cisne Blogger ::..

..:: Cisne webmistress::..
Todos os direitos reservados ©

 

 

Nome: Andréa
Apelido: Cisne
Idade: 25 - signo: Leão
Hobby: Escrever, desenhar e blogar.
Gosta: Animais - cães e gatos.
Frase: Não queira para os outros o que não quer para si.


Capa do Blog: Meu gato Laka

Blog especial:
Amigo dos animais

Meus bichos adotados:

Ikki - gato - ong amigo dos animais - em memória - + 12/02/2004 +
Duma e Kira - gatas - as achei com 3 dias de vida - hoje estão com 7 meses.
Phoenix - gato - adotado no site adote um gatinho com 3 meses - hoje está com 5 meses
Laka - gato - adotado através da Dani - protetora - com 2 meses - hj está com 3 meses.
Quer conhecê-los? Então visite o site:
www.nossosbichos.1br.net
ou os fotoblogs:
http://www.cisne.fotolog.fot.br/
Fotolog amigo dos animais


e veja como eles são felizes!


Adote
!
Mais que um ato de caridade, adotar é um ato de amor, a gratidão e o carinho destes seres não tem preço.

Sobre o Blog:
Um blog onde coloco tudo que der vontade: desenhos, receitas, frases, reportagens, lendas, histórias, etc...